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divulgação/MSF

Solidariedade barrada nos Conselhos

Esta semana, lendo um texto do cientista político Emir Sader, tomei conhecimento de uma triste realidade: médicos formados não podem clinicar no Brasil. Explico.

A Escola Latino-Americana de Ciências Médicas, em Havana, Cuba, anualmente, seleciona jovens em todos os países da América Latina, Estados Unidos e em países do sul do mundo, para ingressar no curso de medicina GRATUITAMENTE, junto com hospedagem e alimentação. Do Brasil, a primeira turma já se formou, a segunda está para se formar em agosto, e Cuba elevou a cota de alunos oriundos dos movimentos sociais brasileiros para 500. No total, são 600 futuros profissionais e 44 formados na primeira turma que poderão trabalhar na medicina social brasileira. Só temos um probleminha: enquanto Argentina, Uruguai, Guatemala, Honduras e países da Europa e da África recebem de "braços abertos" seus médicos, os recém formados na melhor medicina social do mundo estão encontrando resistência nos Conselhos Regionais e Federal de Medicina brasileiro.

No Brasil, sabemos muito bem, que os cursos de medicina estão cheios de moças e rapazes bem nascidos, de famílias abastadas, que, ou puderam proporcionar uma boa formação escolar para seus filhos (escolas particulares e cursinhos) dando a oportunidade de concorrer a uma vaga na faculdade de medicina da USP, ou podem "bancar" a mensalidade em uma faculdade particular. Estes profissionais, que quase sempre (uso o quase para não generalizar, mas é a grande maioria, convenhamos!) já tem seus consultórios montados em algum prédio da Avenida Paulista ou região. E estão prontos para atender aqueles que tem alguma coisa em comum (dinheiro) ou algum funcionário de uma multinacional que graças a "boa vontade" da empresa tem um plano de saúde que garanta um atendimento de 10 minutos naquele local. E estamos maravilhados!

Enquanto isso, 80 milhões de pessoas vivem (ou sobrevivem) sem qualquer atendimento médico, cerca de 500 municípios brasileiros nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste não tem sequer um médico, outras 3000 cidades não tem um número suficiente de profissionais e, os doutores pobres formados em Havana ainda não tem autorização para clinicar.

Brasil e Cuba, assinaram em setembro de 2006, um ajuste complementar no Acordo Bilateral para revalidação dos diplomas, mas, precisa ser aprovado por três comissões do Congresso Nacional – Comissão de Justiça e Cidadania, Comissão de Relações Exteriores e Comissão de Defesa Nacional. Espero que as relações exteriores se entendam, a justiça se faça, a cidadania se concretize para que a defesa dos direitos dos cidadãos brasileiros por uma medicina de qualidade se estenda ao âmbito nacional.

 



Escrito por Fernanda Cassero às 11h00
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Poder, informação, memória e história

Em tempos de globalização, informação, mídia e poder, esquecemos um pouco (ou não tomamos conhecimento mesmo!) da história de nosso país. As escolas ensinam na disciplina de história, que a Princesa Isabel libertou os escravos, Dom Pedro I declarou a independência às "margens do Ipiranga", Getúlio Vargas criou a "carteira de trabalho" e o FGTS, e os inesquecíveis "50 anos em 5" de Juscelino Kubitschek.

No Brasil, os anos de ditadura e repressão, durante o regime militar (1964-1984), deixaram um saldo de mais de 500 mortos, um outro tanto de desaparecidos e centenas de mutilados. Nos anos de chumbo, marcados pela truculência e a violência qualquer homem ou mulher que se atrevesse a lutar (não é minha intenção entrar no âmbito da política) por algum ideal que fosse contrário ao gosto do PODER, era levado ao calvário da tortura como "fonte" de informação. O método mais doloroso de se fazer falar.

Neste contexto, uma parte da história que poucos conhecem: a participação ativa da igreja na resistência contra a ditadura imposta. Freis da ordem dominicana eram atuantes junto as forças de esquerda, principalmente com a Aliança Libertadora Nacional (ALN). Seu papel era proteger, esconder, transportar, ajudar na militância por um país mais justo, mais digno.

Dos freis que atuaram contra a repressão, Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, foi levado ao DOPS, e de lá nunca mais voltou. Não que seus algozes o mataram, isso seria negativo, a igreja, apesar de apática nesse momento, tinha um membro seu sob custódia do governo. O homem que foi devolvido ao presídio não era o mesmo que fora arrancado de lá. O delegado Sérgio Fleury se introjetou em Tito de maneira que nunca mais saísse. Sobreviveu durante alguns anos, exilado.

Era 1974. Em algum lugar da França, um "grito" de liberdade. Livrou-se de Fleury. Tirou a própria vida.

 

Para saber um pouco mais sobre essa história, o livro "Batismo de Sangue" de Frei Betto revive essa história e estréia dia 20/04/07 nos cinemas, "Batismo de Sangue", direção Helvécio Ratton baseado na obra homônima.



Escrito por Fernanda Cassero às 11h45
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Violência e crueldade que ninguém noticiou

 

Sábado é o dia que consigo colocar em dia as “novidades” com a minha mãe, durante a semana, não é possível por conta dos nossos horários. Infelizmente, as novidades deste fim de semana não foram nada agradáveis. Soube que um crime bárbaro aconteceu aqui, perto de casa, no início da semana.

Como milhares de outros crimes que vemos, ouvimos e lemos nos jornais, a forma como os fatos acontecem chocam pelo requinte de crueldade mantido pelos algozes das vítimas.

Davi (ou será David?) um garoto, de aproximadamente 11 anos foi lançado barranco à baixo após ser estuprado, degolado e mutilado por um “coleguinha” de rua. Sim, um garoto de 14 anos foi o “elemento” responsável por mais esta barbárie. Eles viviam juntos, em um bando de moleques que pediam nos semáforos nos cruzamentos das avenidas Capanellas e Esperantina. Com o dinheiro arrecadado comiam esfiras no Habib`s  e por diversas vezes passavam em frente a minha casa fazendo aquela arruaça de criança. Essa cena me lembra a narrativa de Jorge Amado, o bando de Antonio Balduíno, o Baldo, que vivia pelas ruas de Salvador. Certa vez tentaram abusar de Belo, mas Baldo, Gordo e Anão não permitiram tal covardia. Eram unidos não só na badernagem e na vagabundagem, zelavam uns pelos outros. Tinham no coração nobreza e o olho da caridade aberto. Onde estariam os outros moleques da "turminha do farol?"  

Por que este crime aconteceu? Estaria o assassino drogado? Seria um acerto de contas por um delato? Estaria mais alguém junto? Ninguém explica, a lei do silêncio “fala mais alto”.

Este caso não foi noticiado. Talvez porque tenha ocorrido em uma favela da Zona Leste. Talvez porque o garotinho assassinado não era filho da classe média. Talvez porque esse tipo de crime já está banalizado até nos meios de comunicação.

Eu não conhecia o Davi, mas pergunto: até quando? Quantos casos como esse ainda presenciaremos?

A sociedade da crueldade, intolerância e criminalidade cresce a olhos vistos. O que nós podemos fazer?

Quem tiver resposta, por favor comente.

Enquanto isso, a avó de Davi (grafarei assim o nome) dona Lourdes sabe bem o que lhe falta. Amarga a perda do neto.

Escrito por Fernanda Cassero às 17h21
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O Mundo Mágico da Leitura

Quando eu era criança e estava na quarta série primária, lembro bem que o dia favorito da semana não era aquele em que íamos para a quadra esportiva, mas o que era destinado à sala de leitura. Lá, ao redor das imensas mesas redondas, oito ou nove crianças que, sentadas, não alcançavam os pés no chão, tomavam gosto pela leitura.

Havia uma senhora, certamente uma professora de português. Ela tomava conta daquela garotada e, com suas estórias e histórias, aguçava a imaginação e com seu carinho indicava livros para todos os gostos. Conhecia cada um. Assim, conheci os primeiros livros e autores.

Quando eu já estava na 6ª série, no início do ano letivo, a placa da sala de leitura foi trocada. No lugar da tabuleta colorida, a nova indicava Biblioteca. A senhora, contadora de estórias e a maior incentivadora de leitura que conheci, nos deixou, da mesma forma que a tabuleta. As portas da então biblioteca não mais se abriram para mim. Os livros não mais me foram emprestados.

Conto essa história porque durante longos anos, as salas de leituras deixaram de existir e acredito que, com essa extinção, muitas crianças e jovens não tiveram a mesma oportunidade que eu.

Para a realização de uma reportagem, percebi que as coisas começaram a mudar. Bibliotecas tornam-se Pontos de Leitura e comunidades organizam-se e incentivam crianças, jovens e adultos a ler. Arrisco dizer que a paixão pela leitura, aquela que conheci há duas décadas, está de volta.



Escrito por Fernanda Cassero às 09h11
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Troca de olhares são impressões que ficam

Cidade Tiradentes ensina que as verdadeiras transformações sociais acontecem de dentro para fora

 

Domingo, nove da manhã. Ponto de encontro: Metrô Penha. Galera agitada e um misto de apreensão, preconceitos, histórias de “ouvi falar que”, ansiedade, animação e desanimo. Esse foi o panorama da nossa primeira visita em equipe. Depois de reconhecer o campo, de visualizar a grandeza e a multiplicidade incomparável, era hora de cada uma das equipes buscar aquilo que se propuseram realizar.

Sem deixar de lado, o fato de estar em um local considerado como um dos mais perigosos da cidade, onde a criminalidade existe desde sempre, aprendi que nem todo cidadão “tiradenteano” é bandido. Sabe aquele velho jargão “a primeira impressão é a que fica”, aconteceu comigo. Em minhas inúmeras andanças, pude partilhar de um pouco da vida de um povo que saiu de locais diferentes de São Paulo e juntos construíram uma nova pátria, cheia de lutas, preconceitos, virtudes e esperança.

A pobreza é mais pobre em alguns cantinhos lá, e o assistencialismo (lícito ou ilícito) chega como forma de esperança para muitos. Tive certeza disso, quando pude experimentar de bem perto esta realidade, enquanto observava algumas crianças que iam de cá pra lá nas rampas da ACETEL ou quando posavam para minhas fotos ao final do cortejo teatral promovido pelo Pombas Urbanas.

Gente de todo jeito e morando de toda forma. Prédio, casa, favela. Sem deixar a peteca cair, essas pessoas, apesar de todos os problemas, estruturais, sociais, assistenciais, culturais existentes, me ensinaram que pudemos lutar por qualidade de vida, educação, por nossos sonhos. Pensei por muitas vezes, enquanto a lotação me levava até lá, que, se o processo de urbanização de Cidade Tiradentes tivesse se dado sem luta, sem esforço, a comunidade teria se desmanchado em egoísmos e individualismos, como vemos hoje na sociedade.

Sei que muito tem a se fazer por lá, que nem tudo é maravilhoso, fantástico e florido, mas as impressões humanas muitas vezes são confirmadas através do sorriso das crianças, da alegria dos jovens, do olhar dos adultos e da compreensão e cumplicidade dos mais velhos. Me senti em casa.

 



Escrito por Fernanda Cassero às 22h08
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O Repórter Doc é um blog criado com a proposta de registrar experiências jornalísticas vividas por mim, enquanto universitária.

Tem uma vertente jornalística-literária, portanto, aqui serão encontradas crônicas, artigos, reportagens e opiniões sobre diversos assuntos, principalmente vinculados às relações humanas.

Espero que gostem. Aproveitem.

Fernanda Cassero



Escrito por Fernanda Cassero às 22h07
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